# 39 sobre Doces pontos🎄
A escrita quer-se equilibrada.
Olá!
Como está? A braços com as festividades da vida e da época, assim o espero e desejo.
A cozinha volta a ser o centro da casa: o som das colheres a bater nas taças, a mesa enfarinhada, o perfume a canela que acorda as memórias... A vida abranda e há quase algo de sagrado nestes dias que antecedem o Natal.
Enquanto preparo as primeiras rabanadas, penso no talento de bem adoçar. É a sabedoria silenciosa das avós que sabem medir o açúcar sem balança e das mães que corrigem o sabor com o olhar. Saber adoçar é perceber o ponto certo, o que falta e o que já sobra.
Talvez, só talvez, escrever seja o mesmo. A escrita também pede uma medida justa de doçura. E a diferença está, quase sempre, na dose. Uma pitada a mais pode ofuscar os outros ingredientes, uma a menos pode deixar o sabor sem ânimo. É essencial encontrar aquele instante exacto, em que tudo se dissolve e o todo ganha corpo.
Cá em casa, as rabanadas são feitas com leite e polvilhadas com açúcar e canela. Para os mais gulosos, há uma calda de vinho do Porto para regar as fatias em tons dourados.
Vinho licoroso, açúcar, água e lume. Não há quantidades precisas na receita da minha mãe, nem papel que as registe. Sem forçar o resultado, ela limita-se a observar. As bolhas, o aroma e a textura são sinais de que o equilíbrio não se resume a medidas, aprende-se.
Uma frase muito carregada ou um adjetivo a mais tornam a prosa pesada. Um ponto final fora do lugar ou uma vírgula esquecida alteram o ritmo. Uma palavra que insiste, um advérbio que se alonga, uma metáfora que se repete cansam.
Ao reler um texto, reparamos nos pequenos excessos que escaparam à primeira leitura. A escrita, como o açúcar, pede atenção: o suficiente para realçar o sabor, nunca para o dominar. Nem de mais, nem de menos.
Não se trata de simplificar ou de apagar a emoção, mas apenas de encontrar a intensidade adequada. Quando conseguimos, a leitura flui. Sem esforço. Sem exagero. Sem enjoo.
É esse equilíbrio entre presença e contenção, doçura e substância, que transforma as palavras em algo que se sente e não apenas se lê.
Talvez seja isso que o Natal nos mostra todos os anos: o cuidado e a generosidade também se medem com tempo, com gosto e com emoção.
Em jeito de presente, hoje as minhas Palavras {q.b.} são sobre 5 doces pontos. Experiências e projectos recheados com afecto q.b. que nos fazem acreditar no poder de uma deliciosa história.
Agora, sente-se, relaxe e desfrute.
Vou começar a servir:
Susana Gomes mostra-nos a visão de alguns criativos através de conversas informais. A presença do papel, “instrumento de registo”, não podia faltar, nesta rubrica do beija-flor.
Porque a imaginação e a criatividade não conhecem limites, nem barreiras. Quando a história se cruza com estórias, tudo pode acontecer. Até descobrir alguns segredos esverdeados.
Lemos poesia, aprendemos significados, descobrimos novos vocábulos e sorrimos. Tudo com uma simplicidade que nos desarma. Às vezes, palavras e ilustrações complementam-se de uma forma quase mágica.
Contadas por um ilustrador fotográfico. Carl Warner gosta de criar e transformar em imagens ‘coisas’ a que não damos a devida atenção. Mas para ele é tão simples quanto encontrar beleza no banal e no quotidiano.
Menos é mais. A palavra falada quando bem acompanhada revela-se um super-poder. Prende a nossa atenção e ficamos à espera para saber o que vai acontecer. No final, tudo faz sentido.
Acredite que criar é perceber o momento e encontrar o equilíbrio. Porque, na escrita como nas rabanadas, é na dose certa, aquela que se sente, que tudo ganha sabor e harmonia.
Desejo-lhe um doce e generoso Natal e um 2026 recheado de inspiração para escrever, cozinhar e não só.
Obrigada pela companhia. (Re)Encontramo-nos no dia 21 de Janeiro.
Até breve e um abraço doce,
Cláudia
Escrever em lume brando
Todos os meses uma palavra nova, cozinhada pela Ângela Rodrigues, autora do Dicionário da Pegada.
Nota da autora
A mesa é o lugar onde cada cadeira guarda histórias, até aquelas que ninguém diz em voz alta. É o lugar onde há um lembrete para valorizarmos que o que importa raramente cabe num embrulho: cabe, isso sim, em talheres desalinhados, risos que chegam antes da comida e silêncios que não pesam. A mesa é palco e refúgio, é ilha e abraço, é onde confirmamos, ano após ano, que estar juntos, e estarmos todos, continua a ser o maior presente.
E escrever, no fundo, é outra forma de pôr a mesa. Escolhem-se palavras como quem escolhe pratos, arrumam-se ideias, acende-se uma luz mais quente. Há textos que pedem espaço, outros que pedem companhia, e todos ganham sentido quando alguém se senta para os saborear. Escrever é preparar um lugar para o encontro: entre quem pensa e quem lê, entre o que vivemos e o que queremos guardar. Tal como em dezembro, é na mesa — e nas páginas em branco — que tudo se junta, tudo se serve e tudo, por instantes, faz sentido.Ângela Rodrigues
Apetite criativo
Vamos voltar ao tempo das cartas? Sou suspeita, porque adoro escrever e receber cartas. Mas a emoção de aguardar pelo carteiro e abrir o envelope é simplesmente deliciosa. O projecto é da autoria da Sandra Nobre, uma escritora, e promete uma correspondência única. Ah! Saudade é o regresso (desejado) às palavras no papel.



