# 40 sobre Pratos simples
A necessidade do essencial.
Olá!
Como está? A apreciar vida no início de mais um novo ano, assim o espero e desejo.
Janeiro tem um cheiro próprio: o ar fresco, as noites longas e uma promessa silenciosa de recomeço.
Reabro a minha cozinha com algo simples: uma sopa de legumes. Nada de receitas complicadas, nada de ingredientes exóticos. Apenas cenoura, abóbora, alho francês, curgete, sal e um fio de azeite.
No mundo dos tachos, a simplicidade tem muito que se lhe diga. Não basta reduzir. É preciso conhecer os ingredientes, perceber como se relacionam e respeitar o tempo de cada um. O mesmo acontece com a escrita.
Um texto claro e elegante também se constrói com escolhas conscientes e confiança no essencial. Um parágrafo que respira, uma palavra que ilumina a frase ou uma pausa que deixa espaço para o leitor. Tudo isto importa tanto quanto o tempero certo na minha panela.
Às vezes, complicamos demasiado. Tentamos impressionar com ingredientes extravagantes ou frases rebuscadas, como se o valor estivesse na soma e não na harmonia. Só que o que realmente toca e alimenta não é o excesso: é o que é autêntico, acessível e relevante. O simples exige convicção. Porquê?
Porque é preciso resistir à tentação de encher o prato ou o texto de coisas supérfluas. Na cozinha e na escrita, complicar não é enriquecer. Pelo contrário, o simples obriga a mais do que o elaborado.
O que nem sempre foi evidente para mim. Escrevi textos em que simplifiquei em demasia e cozinhei pratos que ficaram aquém do que imaginei. Confundi leveza com vazio, clareza com ausência. Foi a experiência e a prática que me ensinaram a diferença. Simplificar não significa apagar, mas dar peso, conta e medida ao que realmente importa.
O lume baixo deixa a abóbora cozer lentamente e mantém a doçura natural da cenoura. Tudo parece trivial e é. Mas é exatamente essa leveza — reler, cortar, ajustar, esperar, combinar — que transforma um prato simples ou um texto claro em algo que se sente e permanece.
Há uma maturidade silenciosa no gesto de simplificar. Ela nasce quando deixamos de provar tudo ao mesmo tempo e passamos a confiar num sabor de cada vez. Na folha, como no prato, o essencial não grita: sustenta. É ele que permite que a frase permaneça, a ideia assente e o leitor fique. Não porque ficou deslumbrado, mas porque foi tocado.
Para ajudar a tornar este Janeiro mais leve, hoje as minhas Palavras {q.b.} são sobre 5 pratos simples. Sugestões para ler, ouvir e apreciar com tempo e prazer. Inspire-se e torne o seu 2026 mais criativo.
Agora, sente-se, relaxe e desfrute.
Vou começar a servir:
Uma missão simples, mas ambiciosa: contar as histórias por trás dos sons mais reconhecíveis do mundo. Cada episódio revela o extraordinário no ordinário, mostrando que a atenção transforma o comum em fascinante.
2. Ler devagar
Uma tabela periódica reinventada, onde os símbolos químicos são substituídos por palavras bonitas, promessas vagas e termos que reconhecemos de cor. Afinal, nem tudo o que soa a técnico tem, de facto, conteúdo.
3. Contemplar
Uma artista cujo gesto criativo nasce do olhar atento do quotidiano. Nas suas mãos, o simples torna‑se revelador: cortar, dobrar, montar, observar. Não para impressionar, mas para fazer sentido com o essencial.
Coleccionar pode ser discreto. Cada objecto, escolhido sem ostentação, guarda pequenas histórias e memórias inesperadas. Mais do que acumular, trata-se de aprender a reparar e a reconhecer valor no que permanece.
“Uma newsletter ilustrada sobre informação não nutricional.” É como a Cláudia Marques descreve a sua carta digital. Uma assumida perguntadora, a autora transforma a sua curiosidade natural em cor, boa disposição e prazer.
No fim, a sopa fica pronta sem vaidade. Não impressiona, mas alimenta. E talvez seja isso que procuro quando escrevo: algo que não preciso de explicar demasiado para fazer sentido.
É que o simples, quando bem feito, conecta as pessoas, desperta os sentidos e deixa espaço para o inesperado.
Quando escreve ou cozinha, consegue confiar no essencial e deixar o resto de fora? Se tiver tempo e vontade, partilhe comigo as suas ideias. Vou adorar ler.
Obrigada pela companhia. (Re)Encontramo-nos no dia 21 de Fevereiro.
Até breve e um abraço simples,
Cláudia
Escrever em lume brando
Todos os meses uma palavra nova, cozinhada pela Ângela Rodrigues, autora do Dicionário da Pegada.
Nota da autora
Janeiro pede promessas. Não as grandes, ruidosas, feitas para impressionar... mas as pequenas, possíveis, ditas em voz baixa. É um mês de começos cautelosos, de páginas ainda limpas, onde o futuro não exige certezas, apenas intenção. Promessa faz sentido em janeiro porque é aí que aprendemos a negociar com o tempo: menos pressa, mais presença. Um gesto silencioso que não faz barulho quando nasce, mas pesa quando é dito em voz alta e que vive nesse espaço frágil entre o que sentimos agora e aquilo que esperamos ser capazes de sustentar depois.
Tal como a escrita. Escrever em janeiro é prometer continuidade, mesmo sem saber tudo. É assumir que vamos ficando, frase a frase, atentos ao que cresce devagar. Porque há palavras — e meses — que não pedem espetáculo; pedem apenas compromisso. Com a atenção de quem escreve, com a verdade de quem lê. Ficar até ao fim da frase. Cuidar do que se diz e, sobretudo, do que se cumpre. Porque há palavras que só fazem sentido quando são habitadas... devagar, com presença, e sem garantias.
Ângela Rodrigues
Apetite criativo
“Uma cidade com livrarias é uma cidade com mais leitura.” Com isso em mente, 37 livrarias de São Paulo uniram esforços e criaram um mapa das livrarias de rua espalhadas pela cidade brasileira. Disponível em versão papel e digital, o guia é um convite à aventura e à descoberta da leitura, da arte e da cultura. Sem dúvida, um exemplo a seguir deste lado do Atlântico.



