# 42 sobre Ingredientes extra
Escrever mesmo quando a vontade não chega.
Olá!
Como está? A brincar com a vida, assim o espero e desejo.
Março tem-se revelado uma surpresa. As tarefas acumulam-se e tenho a sensação persistente de que o tempo nunca é suficiente. E é neste cenário, pouco ideal e pouco inspirador, que sou posta à prova.
Apesar de não ter tempo. Apesar de não ter silêncio. Apesar de não haver vontade. Ainda assim tenho de criar, cozinhar e escrever.
Na cozinha, as refeições improvisadas estão na ementa do dia e da semana. Sem planos, sem entusiasmo e sem ingredientes especiais. Mas algo acontece quando decido começar. Ralo uma cenoura e fatio uns espargos, aproveito umas sobras de carne assada e massa cozida, aqueço azeite numa frigideira e salpico com orégãos secos. Cada gesto puxa o gesto seguinte. E, num abrir e fechar de olhos, o jantar está na mesa.
Na escrita, o processo é semelhante. Nem sempre há clareza, energia ou motivação. Há dias em que a página em branco pesa mais do que o texto que está para acontecer. Aprendi que esperar pela vontade é, muitas vezes, adiar indefinidamente. É que escrever começa antes da sobrevalorizada vontade aparecer.
Criar apesar de é aceitar trabalhar em condições imperfeitas. É escrever frases razoáveis, cozinhar pratos descomplicados e avançar sem garantias. Nem tudo será publicado e nem tudo será inesquecível, mas tudo conta.
Durante algum tempo confundi criação com entusiasmo. Sou a única? Hoje sei que são conceitos muito diferentes: o entusiasmo é instável e volátil, a prática não. Criar apesar de é optar pela continuidade em vez do brilho do momento.
Há textos que nascem cansados e melhoram com o tempo. Há pratos que não se destacam, mas alimentam. E há dias em que criar é apenas isso: não parar completamente.
Não vou romantizar este processo. Não posso e não quero, porque criar apesar de não é bonito, nem inspirador. É funcional e útil. Em termos práticos, é o que permite à criatividade não ser uma visita exclusiva dos dias bons.
Talvez a pergunta não seja “estou inspirada?” e sim “consigo começar?”. Mesmo que seja pouco. Mesmo que seja mal. Mesmo que seja só hoje. Porque, na folha e no prato, criar apesar de é a única forma de continuar a criar.
Para que possa escrever mesmo quando não lhe apetece, hoje as minhas Palavras {q.b.} são sobre 5 ingredientes extra. Porque na escrita, como na cozinha, prosseguir também é uma escolha e toda a ajuda é bem-vinda.
Agora, sente-se, relaxe e desfrute.
Vou começar a servir:
Mudar a perspetiva: ver a chuva a cair em Tóquio ou o sol numa rua no Rio de Janeiro. Um simples olhar pela janela de outra pessoa, noutro país, onde a vida está a acontecer, faz-nos regressar à nossa realidade com menos cansaço. É preciso espairecer as vistas.
O som da louça e das conversas de fundo retira o peso do silêncio sagrado (e bloqueador) da escrita. Às vezes, basta mudar de ambiente para recriar a energia de um lugar onde as coisas acontecem. Num instante, o humor transforma-se e a disposição ganha ânimo para (re)começar.
Cada escritor tem as suas rotinas e o que funciona para um, não funciona para todos. Ainda assim, vale a pena conhecer diferentes processos, ouvir conselhos de outros criadores e testar o que faz mais sentido para nós.
Escrever uma carta para um desconhecido pode ser um grande desafio. Obriga-nos a a olhar para fora, para o anónimo, e a usar a escrita no seu modo mais autêntico. Aqui não espaço para a auto-exigência, nem para a perfeição.
Desde 1 de Maio de 2007 que Mike Winkelman cria um projecto artístico diferente, diariamente. Para o autor fazer algo do início ao fim todos os dias ajuda a superar o medo de começar, bem como o medo de terminar. Porque a criatividade também é sinónimo de esforço.
Criar apesar de não resolve tudo, no entanto mantém o pensamento atento e a mão em movimento. Nem sempre é sobre acertar no ponto. Às vezes é apenas, e tão somente, sobre não abandonar a receita a meio. Ser capaz de voltar amanhã, ajustar depois e continuar.
Quando cria, consegue avançar apesar de não ser o momento ideal? Ou espera que todas as condições estejam reunidas para começar? Se fizer sentido, partilhe comigo. Vou gostar de ler.
Obrigada pela companhia. (Re)Encontramo-nos no dia 21 de Abril.
Até breve e um abraço inspirador,
Cláudia
Escrever em lume brando
Todos os meses uma palavra nova, cozinhada pela Ângela Rodrigues, autora do Dicionário da Pegada.
Nota da autora
Março chegou devagarinho. Trouxe dias maiores, mais luz… mas isso não quer dizer que tudo fique automaticamente mais leve. Há dias em que a coragem não aparece em forma de conquista épica. Aparece em forma de leveza [ou na tentativa dela]. Porque os medos continuam ali, sentados à mesa. Porque a procrastinação sabe argumentar muito bem. E porque os bloqueios criativos, esses, às vezes parecem instalar-se como se já tivessem encontrado casa. E é precisamente nesses dias que sorrir faz sentido. Não como disfarce. Não como quem finge que está tudo bem. Mas como um pequeno gesto de resistência. Um sorriso pode ser uma forma tranquila de conversar com aquilo que nos trava. Como quem diz ao medo: “Eu vejo-te… mas hoje não conduzes.”
Com a escrita acontece o mesmo. Nem sempre é um rio a correr livre. Muitas vezes é hesitação, rascunho, pausa, silêncio. E mesmo assim voltamos ao papel. Às vezes cheios de vontade, outras vezes apenas com um sorriso discreto que nos puxa de volta. Sempre.
Ângela Rodrigues
Apetite criativo
Uma maratona de correspondência por correio. Adoro a ideia e adorei ainda mais o conceito quando explorei o projecto. Com a duração de três meses, a primeira edição está em andamento e, infelizmente, não cheguei a tempo de me inscrever. Mas, se tudo correr bem, não vou falhar a próxima oportunidade. Também alinha?




Gostei muito. E seja na escrita ou numa outra área . Por vezes a vontade ou a inspiração não chega… mas o sentimento de querer continuar a criar mantém se. E é aí que temos que nos transformar e ajustar. Espero por Abril.